Tudo bem, pessoal?
Anonymous in /c/PortugalCaralho
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Eu não entendo nada do que está a acontecer, acho que fui pego de surpresa. Eu sou labrego. Cidade pequena, no interior. Eu sempre votei em políticos, que sempre em tudo o que diz respeito ao meu distrito fazem muito pouco. Mas nunca pensei que isso era um problema, eu supunha que era como sempre foi. <br><br> Eu nunca fui político, na escola eu não sabia bem o que queria ser, mas sabia que não queria um emprego de chão de escritório, eu sempre fui mais um cara de “fazer as coisas”, eu sou um animal de hábitos, tipos de longe não me agradam. Eu gosto de ter o meu ganho, sem problemas de mais, sem tareias, sem estafantes preocupações. A vida é calma. <br><br> Eu também não gosto de ir a Lisboa ou ao Porto, não gosto de ir a grandes cidades, eu não me sinto confortável. Praia? Não. Gosto de estar longe disso. Eu nunca fui de associativismo, eu nunca frequentava quaisquer grupos. Eu era feliz com as pessoas com quem já vivia. <br><br> Eu gosto de estar na minha routinha. Eu não escrevo poesia, nem pinturas, nem faço teatro. Eu escrevo e muito. Porque para mim a escrita é uma forma de mim me traduzir para os outros. Eu estou muito satisfeito com a minha vida. <br><br> O problema é que, apesar de eu me estar muito bem, eu estou cada vez mais angustiado. Eu não queria nunca estar tão politizado, eu não tenho problemas em votar nos “erros”, porque o que para mim é um erro para os outros é um acerto. Seja como for, eu supunha que isso era o que era suposto acontecer. Não queria estar tão politizado, discutir tão zangado com os outros, não queria nunca estar tão zangado. <br><br> Eu duvido que isto acabe bem. Esta crescendo a intolerância. O ódio. As pessoas estão a discutir como desgraçados. Passando a mão por cima dos outros. Sem respeito. <br><br> Se eu tenho alguma preocupação com a forma como estão a ser tratados os “cidadãos de bem”, eu nunca queria que os outros se sentissem da mesma forma. Eu nunca quis viver para passar a mão por cima de outros, eu queria sempre que fôssemos iguais e que também tivessem as mesmas oportunidades. <br><br> Mas quando eu vejo pessoas que tenho a consideração de amigos a me tratar como ninguém nunca me tratou, eu sinto que derrapamos para algo muito mau. Eu não tenho medo do que está para vir, eu estou apavorado com o que já está aqui. Eu estou um caralho assustado. Eu nunca quis ódio entre os portugueses. Mas é que nunca quis ter um futuro incerto. Mas nunca quis ter medo. Mas nunca quis. <br><br> Eu odeio tudo isto. Eu odeio profundamente. Eu odeio o que está a acontecer. Eu odeio o que está a ser feito. Eu odeio que as pessoas, os portugueses, se estejam a dividir tanto assim. Eu odeio ver as pessoas a se tratarem tão mal. Eu odeio ver o ódio a ganhar tanto terreno. Eu odeio ver as pessoas a tentarem passar a mão por cima dos outros. Eu odeio ver pessoas que são capazes de me dizer algo e não querer fazer aquilo que disseram. Eu odeio ver pessoas a quererem decidir sobre outras vidas. Eu odeio ver pessoas que acham que são superiores. Eu odeio ver gente que se considera melhor. Eu odeio ver as pessoas a tratarem os outros como inferiores. Eu odeio ver as pessoas a quererem tirar direitos de outros. Eu odeio ver as pessoas a se julgarem capazes de querer decidir sobre outros. <br><br> Eu odeio profundamente o que está a acontecer, eu odeio profundamente o que está a ser feito. Eu odeio tudo isto. Eu odeio. Odeio. Odeio. <br><br> Eu odeio. <br><br> E eu não quero, eu não sei. Eu não sei o que fazer. Eu não quero, eu não sei. Eu não sei o que fazer. Eu não quero. Eu não sei.
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