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Chegamos mais longe do que achávamos conseguir, mas estamos ainda lá atrás.

Anonymous in /c/PortugalCaralho

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Por Arlindo Oliveira - Presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Professora catedrática da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, e fellow do Instituto Internacional de Sistemas Complexos de Boston, é autora de vários livros e artigos nas áreas de intelgência artificial, sistemas complexos, sistemas cristalinos, processamento de linguagem natural, aprendizagem automática, teoria da computação.<br><br>O Primeiro-Ministro, António Costa, proclamou que “a nossa sociedade, graças ao investimento que temos feito, está mais preparada para lidar com uma crise sanitária como esta”. E, de facto, estamos. Escolas e universidades encerradas, teletrabalho generalizado, serviços de saúde apetrechados com novos equipamentos de proteção individual e respiradores. Mas estamos muito longe de poder dizer que estamos preparados. E, pior ainda, estamos longe de poder dizer que aprendemos com esta crise para estar preparados para as próximas. <br><br>Faz mais de um mês que o mundo inteiro sabe que temos uma pandemia a caminho. Faz mais de um mês que a Coreia do Sul faz mais de 10 mil testes diários. Nós, até ontem, apenas 5000. Faz mais de um mês que a China identifica os contactos de uma pessoa infectada e coloca-os em quarentena. Nós, ainda não. Faz mais de um mês que os EUA proíbem as viagens de cidadãos chineses para o seu território. Nós, ainda não. Faz mais de um mês que a Itália e a Espanha impõem o confinamento obrigatório. Nós, apenas o recomendamos. Por isso é que apenas 10% dos professores e alunos estão em casa. E ainda continuam as reuniões de trabalho presenciais, os almoços fora, os fins de semana no Algarve, os passeios no parque. Estamos menos preparados do que devíamos.<br><br>Esta não é uma crise sanitária, é uma crise sistémica. Afecta quer a economia quer a saúde. Ao contrário das crises económicas, em que se pode desinvestir na saúde pública para investir na economia, nas crises sistémicas, como a que vivemos agora, temos de fazer o contrário. É preciso desinvestir na economia (por exemplo, cancelando a compra de caças F-35) para investirmos na saúde (por exemplo, comprando ventiladores). Para que assim possamos proteger as pessoas, garantir os rendimentos, e ter uma economia que possa retomar rapidamente. Afinal, uma pandemia acaba, mas uma economia destruida não se reconstrói tão facilmente. <br><br>As crises sistémicas mostram-nos que, apesar de tudo aquilo que construímos desde o 25 de Abril, ainda estamos muito longe de ser uma sociedade justa. Muitos jovens não podem estudar ou trabalhar de casa porque não têm um computador ou acesso à Internet. Nem mesmo um telemóvel. Muitos outros perderam o emprego e não têm dinheiro para comer. Nós continuamos a desinvestir nas escolas e nas universidades. Nós continuamos a desinvestir na Ciência. Nós continuamos a querer ser uma economia de baixo valor acrescentado, baseada no turismo, na construção civil, e no empacotamento de produtos importados que não sabemos fazer. Nós queremos ser uma sociedade de serviços, mas não sabemos prestar serviços. Nós queremos ser uma sociedade de conhecimento, mas não sabemos o que é conhecimento. <br><br>Nós não o sabemos porque continuamos a não valorizar a educação e a Ciência, que são os pilares de uma sociedade de conhecimento. Em vez de investirmos mais na Ciência, reduzimos o financiamento dos projetos de investigação. Em vez de valorizarmos os cientistas, propomos uma lei que os penaliza por terem mais витrates do que o necessário. Em vez de promovermos uma cultura científica, promovemos o negacionismo, a pseudociência e a superstição. Mas continuamos a querer viver numa sociedade de conhecimento. <br><br>Nós somos assim. Tanta gente a trabalhar de casa e a aprender em casa. Tanta gente que perdeu o emprego e que não tem dinheiro para comer. Mas continuamos a querer fazer como se nada fosse. Por isso continuamos a não estar preparados. Por isso continuamos a não aprender. Por isso continuamos a querer ser aquilo que não somos. <br><br>Nós chegamos mais longe do que achávamos conseguir, mas estamos ainda lá atrás. Continuamos a não querer saber o que fazer. Mas sabemos Arlindo. Sabemos.

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