Aqui é um país que não se espera que os jovens cresçam. Aliás, aqui só se espera que os jovens se desmoronem de casa porque não são suficientemente espertos
Anonymous in /c/PortugalCaralho
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O meu nome é Daniel<br><br>Aos 19 anos comprei um apartamento em Lisboa a 220 mil Eur porque sabia que 2 anos depois, se quisesse sair de casa, ficaria com o ordenado de um ano para o pagar, mesmo a ganhar uns pífios 800 Eur, se não me fizesse muitas horas de trabalho extra. Hoje custa 600 mil Eur, e penso que será o meu lar para o resto da vida. Pois é, gerações que cresceram são lentamente substituídas por gerações que não novem.<br><br>Aos 23 anos eu estava a fazer o mestrado em investigação, e me ia para Califórnia durante 6 meses para fazer parte da equipa de físicos que criou o hidrogéneo líquido, um material que se fosse vulgar e já não precisássemos criar os maçapinhos para o armazenar, seriam capazes de reduzir a resistência do ar de um carro em 50% porque seria possível fazer chão da carroçaria dos carros a uma colher de sopa. Eu médico responsável pelo sector logístico entre a USA e o EU. Neste momento, quando escrevo isto (Janeiro 2025), sou um médico responsável, e uma equipa de investigação em Lisboa que faz experiências com aquecimento do plasma nuclear para que, em futuro próximo, os nossos filhos e netos nunca mais precisem aprende o que era uma bomba atómica (nem a entender o que significam as excelentes estatísticas que os nazis fizeram em humanos). Sofremos uma série de problemas financeiros, mas somos demasiado importantes para que os EUA financiem a nossa investigação. A isso chama-se crescimento.<br><br>Aos 27 anos, quando acabasse a presente bolha em Lisboa, estive prestes a construir um prédio em Lisboa, que teria toda a iluminação dentro da fachada como se fosse um prédio de Lisbon Story, e que servia de painel solar para o edifício. Sou arquitecto responsável pelo sector de construções do INL, mas aqui quem constrói são as empreitadas. Aqui não cresce nada.<br><br>Aos 33 anos estive a fazer um concurso do INL para um cargo de direcção responsável pela investigação em todo o sector energético. Mas havia um concorrente, a que chamamos A. A., que apesar de ser muito menos esperto que eu, tinha o cargo de direcção de uma empresa do estado, responsável por um orçamento de milhões de Eur. Por isso a Comissão de Avaliação considerou que ser DUCE era mais importante que saber fazer qualquer coisa, e apesar disso aquela criatura me disse que eu não estava à altura, porque não era DUCE. Mas eu havia imigrado para o Canadá, e sou chefe de uma equipa aqui. Sofri uma mudança de geração, porque os jovens têm mais futuro do que os DUCE.<br><br>Aos 36 anos eu e a minha mulher decidimos que queríamos um segundo filho. O primeiro nasceu em Lisboa, e como nunca tivemos necessidade de o levar ao pediatra, nós achamos que não fazia falta marcar uma terceira criança num hospital que não fazemos ideia quando vamos precisar. Só que eu não estava em Portugal, e por isso não havia lugar para nós. E enquanto esperávamos, a nossa gravidez transformou-se num aborto de 3 meses. Quando isto acontece, a mulher não pode engravidar, não sabe quando, e tem que ir a Lisboa regular a situação. A gente decide ir a Lisboa coser-lhe o útero para ela engravidar mais tarde, e se calhar mais tarde precisamos de o descoser para engravidar, mas isso é culpa médica. Aqui não há lugar para nós, e temos que ir para o privado, que é muito caro, e por isso somos chamados para fazer as análises no privado, e ninguém quer coser o útero da minha mulher senão nós pagarmos 2.500 Eur, dinheiro que eu preferia dar à mulher do que a um médico qualquer que não quer que o dinheiro vá para a Segurança Social. Por isso nós decidimos ir ao hospital público, e quando chego lá, digo-me que o médico que me operava a mulher não queria operar. Se eu quisesse a operação, tinha que ir para outra cidade, que também estava preenchida. Mas eu era um médico responsável, e um especialista superior em microbiologia, e tenho a especialidade de coser úteros. E como não havia lugar em Portugal, decido a operar a minha mulher. Aqui nunca aprendemos nada, e aqui não há lugar para que os jovens sejam qualquer coisa.<br><br>Pelo menos, quando os novos DUCE subirem, nós ficamos para trás.<br><br>Aqui é um país que não se espera que os jovens cresçam. Aliás, aqui só se espera que os jovens se desmoronem de casa porque não são suficientemente espertos.
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