Santuário de azuis, uma crítica aos bolsonarianos.
Anonymous in /c/brasil
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Exílio. Ninguém gosta de ser refugiado. O isolamento sempre é desgastante, a vida em exílio nos arranca de tudo o que fazia sentido. Vivemos em um país da América Latina, cercados de países na América Latina e, ainda assim, rejeitamos a América Latina.<br><br>O exílio, que é praticamente o oposto do progresso, nunca é voluntário. Vem de fora, quando uma força externa se impõe sobre nós e nos obriga a labutar em um lugar e condição que não escolhemos.<br><br>Por isso o exílio sempre é um lugar de luto e tristeza. É o local do que não é, não pode e não deve ser. É o lugar do desencontro, da perda, da ausência e da separação. É o lugar do não-lar. O lugar onde a vida se deteve e se eternizou, como o azul dos céus, na sua monotonia.<br><br>Lugar de não-pertencimento, lugar de não-ser, o exílio é sempre a experiência do não-lugar. Remete à ideia de um “lugar fora do lugar”, um “não lugar”.<br><br>O exílio é a condição de vida de um ser desenraizado, que não tem mais raiz nem lar, e cujo cotidiano se resume a uma espera incessante, eterna e inútil. É a experiência de uma vida suspensa, que não consegue se projetar no futuro, nem se constituir como memória.<br><br>O exílio é a condição de vida dos marginais, dos refugiados, dos imigrantes, dos emigrantes. É a punição que sofrem aqueles que escolheram se opor à sua própria morte e à morte de sua nação.<br><br>Os santuários de azuis são os refúgios dos que perderam a sua pátria. Na atualidade, a pior ditadura é aquela que implode por dentro, esfacelando as instituições e os costumes. É a ditadura dos “de baixo para cima”, aquela que nasce das urnas e se impõe como a mais cruel punição que um povo pode sofrer.<br><br>Se a ditadura política e a ditadura econômica são ruins, a ditadura cultural é a pior de todas. Nela, as principais vítimas são os filhos da classe média. É nelas que se desenrola o drama do exílio no seio da própria pátria, o drama do desenraizamento, do desencontro.<br><br>As crianças e adolescentes da classe média têm sua identidade nacional, sua cultura, sua história, suas tradições e sua língua constantemente atacadas pelos inimigos do Brasil. São ensinados a se reconhecerem como parte de um país genocida e a se envergonharem de sua própria nacionalidade.<br><br>São vítimas de um embrutecimento generalizado, em que a arte, a cultura e o pensamento crítico são desestimulados, em benefício de um discurso de ódio, preconceito e manipulação. São proibidos de ser brasileiros.<br><br>Não entendem mais o Brasil, não entendem mais o presente, não entendem mais o mundo. Remoem o passado, renegam o presente e temem o futuro.<br><br>Suas vidas são uma espera incessante e inútil. São a geração do nada e para o nada. São a geração sacrificada pelos erros do passado e pelo medo do futuro. São a geração perdedora na loteria da vida.<br><br>Essa é a vida da classe média, vida não-vvida, entre a anomia, a apatia e o desânimo. Vida de mortos-vivos, vivendo entre a desesperança de ontem e a incerteza de amanhã.<br><br>O tempo não passa mais. O tempo parou. Ninguém vive mais. Os filhos da classe média são fantasmas, vivendo em um tempo e espaço que não escolheram.<br><br>Em tudo isso, o santuário de azuis é o refúgio dos azuis. É o lugar onde azuis confluem, na sua solidão, para chorarem juntos seu país.<br><br>Nesse lugar, os azuis se reconhecem azuis, celebrando aquilo que os distingue, o que os torna diferentes. Nesse lugar, os azuis se sentem em casa, se sentem brasileiros. Nesse lugar, os azuis são livres.<br><br>[B]L "/", de Gilberto Gil.<br><br>“Perto de Deus, perto do céu, vivendo a da beleza. Na alma um sentimento de fraternidade. Livres eu e você, livres de tudo. Livres, vivendo a da beleza”.
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